segunda-feira, abril 16, 2007

Hiato

Os sentimentos rolam soltos no rio
Sei falar dos que ficam presos às margens
Sei que a memória é um pátio de milagres
e a distância um molho apimentado

Te desejo na cidade maravilhosa seria eu
a encostar meus lábios nos teus
devagar sem a urgência de sempre

Urgente é escrever antes que tu passes por mim

sábado, abril 14, 2007

Medusa

Há duas maneiras de se esconder. Ou vou para um lugar onde não haja e ninguém ou sumo no meio da multidão. Silêncio.
Se eu não fosse resultado dos meus desejos trombando com o que a vida me oferece, então nada seria. Metade.
O mundo é uma imensa loteria que se deixa manipular os números e eu estava com sorte. Coringa.
A felicidade passa por conhecer pelas mãos e aceitar que os espinhos machucam enquanto protegem a flor. Verdade.
Esconder é perder-se de si. Inteiro.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Oxigênio

Quando não souber o que fazer apenas respire.

domingo, janeiro 14, 2007

Yin yang

Nada é completo, só a morte. Vivemos num e se fosse como seria talvez melhor para deixar desejo de completar a lacuna. Nenhum sentimento vem puro. Quando se acha que está farta aparece a fome pequenina até virar leão. Os medos precedem as vitórias de quem não imaginava levantar troféu. Às vezes a coragem leva ao tombo e vice-versa.
Quem olha o sol nascer todo dia sabe que o círculo não fecha enquanto se respira. Milhares de vidas pulsam em tragédias e prazeres. Repara que as ondas vão e vem o sol nasce e morre e o pêndulo se move enquanto oscila entre os dois lados. Repara que a vida não pode ser só tristeza, e que chove e dá praia. As lágrimas limpam os olhos que cansam de sofrer e resolver rir da vida roda gigante. Até a terra gira em torno do sol, e só Deus sabe em torno de que o sol gira. É necessário que ninguém saiba porque um pouco de mistério é a pimenta do mundo.
Eu não vi tudo, muito menos você.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Facada giratória

A dor agora era contida, a boca travava e os olhos hidratavam. Histeria e lágrimas tempestade haviam ficado para trás. Parecia que assistia ao mundo um degrauzinho acima. Era uma evolução. Era bom e era péssimo.
Sentia em meu corpo tremores de doença física que eu sabia que vinham de ti. Me derrubaste por não pegar em minha mão quando eu caía.
O amor havia de ser próprio antes de tudo. O amor próprio anulava um amor tão grande e tão esperado que acabou por morrer na praia. Nenhuma distancia física é capaz de me afastar de ti como as não palavras. Não sei o que pensas, só sei que o que teu pensamento não faz de ti boa coisa. A raiva é o mundo que gira sem se dar conta de nós.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Engasgo

Ontem eu tocava meu sorriso sem pensar que tudo ia acabar assim que estivesse feito. Sonho partido por leve rancor que trava qualquer mão estendida. Amarro as mãos com arame farpado pra nem correr o risco.
Hoje descobri que a paixão não pode ser boa

terça-feira, janeiro 02, 2007

Suspiro

Um coração intransitável dizia que era hora de partir. Vivia na corda bamba entre o casco e a geléia. Molhava os dedos nas paixões enquanto tentava raciocinar e proteger o corpo com os mãos. Era concreto meio frouxo.
O ano começava e nem parecia. Esperava notícias e tentava controlar a ansiedade de garota.
A mulher estava engolindo a menina, cada vez mais. Sabia que o mundo era uma constante tensão entre a pureza e a malandragem. E ela não era nem uma coisa nem outra.
Os fogos pipocavam no ar e desabrochavam formas iguais às do ano passado.

sábado, dezembro 09, 2006

Amor

O contraste do fim do mundo é o contrario de sentir na pele cada gota correndo fácil ao ponto que evapora e o momento passou. Cada olhar será guardado na memória, ou não. A música bateria mais forte se eu fosse ouvido, mas ainda bem que todos os sentidos apurados celebram. Mentiras que inventamos para poder conversar. A realidade nua e crua não flui.
Moldados ao molde da sorte, grande seria se achasse amor eterno nos olhos fugazes e talvez até já tenha passado.
Melhor seria se o mundo fizesse carinho na medida certa e os momentos de choro não se confundissem tanto com os de suor. Metades são muitas, gana dividida.
Só sei que sei pouco mas gosto muito.

domingo, novembro 26, 2006

Mãos

Dispenso os galanteios do destino. Seguro as rédeas com tanta força que chega a sangrar. Olho atenta cada curva, sempre à frente. Desisti do barco na correnteza nem sempre amiga. Remar me cansa os braços, mas é necessário para me tornar humana.
Somos a raça do exagero, do drama e do amor. Somos diferentes do resto e no entanto o instinto sobrevive. Tenho que dominar o cavalo que deseja correr livre fogoso.
Não posso admitir que eu, humaníssima, serei controlada pelo meu animal . Há que se adestrá-lo. Matá-lo, nunca.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Vida

Cada momento um sentimento ocorre mais ou menos intenso. Ainda agora eu estava a sorrir e sentir a música. Dançava e cantava.
Num súbito o mundo escureceu e o sol mergulhou nas profundezas. Caí. Estou aqui agora num sentimento médio tentando lidar com as coisas.
A razão é salvadora do sofrimento. Só ela está lá precisa e matemática. Ela é constante, movimento uniforme que não pulsa. Apesar de tão sem graça ela faz coisas incríveis. Preciso recorrer mais à ela.
Sou um rio que corre direto sem pedir licença. Atropelo as pedras que insistem em mudar o rumo. As vezes empoço e odeio quando isso acontece.
Desembesto sem arreio e nem sempre é bom. Mas quando é, ninguém segura.
Sábio é o vira-lata, que desconfia até quando lhe oferecem comida. Sábia é a criança, eternamente buscando o doce.

Solidão

Sem poesias e palavras doces. Nada. Acabou. Ela não suportava mais abrir concessões e estava tomada por um amor próprio que doía de abrir mão. Ela olhava a cena e sentia um desgosto de ter sentido amor.
O sangue que rola ficou turvo e o peito fechou. Fechou de ódio e de uma auto piedade que a fez buscar o silêncio. As distrações que buscou findaram logo.
O barulho do ar condicionado era constante e o quarto estava sozinho. Sozinha era a lembrança de sempre, por mais que houvesse pessoas durante todo esse tempo. A ilusão da companhia havia acabado. Ela odiava com força mas isso não tornava as coisas mais fáceis.
O sentimento de perda doía mas ela havia feito escolha. Pensava em si mas a confusão espalhava na sua cabeça.
Doía uma dor suave. Não era nada demais, mas ver uma possível estrela fugir dessa forma, por escolha dela mesma, ou talvez por não entender como se faz um coração, doía.
Logo ela desejada desejava o objeto errado. Ela e a humanidade, que havia descoberto gostar do descaso. Tinha cansado de brincar de caça ao tesouro.

domingo, outubro 01, 2006

Lua nova

Ela estava começando a gostar de caminhar sozinha. Um filho agora seria corrente. Num surto de maternidade pensava nos olhinhos e na mãozinha prendendo em seus dedos. Pensava na Europa. Pensava nas noites de loucura e nas irresponsabilidades que ainda queria fazer. Pensava nas dobrinhas de carne nova, mas não conseguia odiar, só um pouquinho.
Já sabia que a distancia entre um beijo e uma vida era muito pequena. Já sabia, sempre soube, mas a correnteza era tão forte e tão adorável que pra se jogar não custava. Ia custar caro agora, talvez.
Pensava no tempo entre uma coisa e a outra, entre o status quo e o novo estado das coisas. Era um momento, sem alarme.

sábado, setembro 23, 2006

Escuro

Eu prefiro esquecer que o Rio existe por enquanto. Os objetos mais amáveis devem ser encobertos com panos brancos porque qualquer visão de um passado recente pode machucar.
Os olhos dela me fazem chorar. É melhor então que eu esqueça que exista, mas como ela existe! Como me arrebata o corpo todo a cada mínima memória jorrada nas sinapses de meus neurônios já confusos. Sigo na contagem regressiva, mas está longe.
Coleciono novas lembranças, muitas tem lugar certo na gaveta do esquecimento. Admiro a capacidade humana incrível de enterrar as coisas ruins. Há que se lembrar das coisas boas, mas justamente agora preciso esquecê-las.
Uma foto familiar me traz um sorriso seguido de aperto, o amor tem maneiras estranhas de se manifestar.
Viver é arrumar novos motivos pra rir e pra chorar.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Orvalho

O que seria do ego se a paixão fosse mais forte que o desprendimento? Respirava fundo e aspirava todo o cheiro de quem era a bola da vez. Um novo amor era mata borrão.
Sentimentos antigos eram rapidamente substituídos pela mesma coisa só que com outra pessoa. Ela mergulhava.
A cada passeio na montanha russa tudo se tornava um pouco mais previsível, mas os beijos eram sempre rodamoinho. Se deixava tocar e abria cada poro.
A conversa era música e os momentos eram tão agradáveis que ela esquecia do resto. Era bom o suficiente para deslocar o eixo.
Ela desejava sem saber que ia passar.

domingo, agosto 27, 2006

Por favor é o caralho

Ela prendia os cabelos num rabo de cavalo baixo e sentava na última fileira. Rezava para a professora não lhe pedir que respondesse nenhuma pergunta na classe. Não que não soubesse, ela sabia até demais, mas qualquer movimento que trouxesse holofotes era perigoso.
Ela se escondia e tinha medo. Medo das pessoas que cresciam como monumento.
O problema é que por isso mesmo cada vez que sua voz era ouvida todos se voltavam para ela. Ela odiava. Tinha medo de falar besteira e ser crucificada.
Aos poucos foi surgindo a raiva do medo.
O problema é que a raiva não mata o medo, mas já era alguma esperança para aquela pobre alma cujo corpo apagado não comportava.
Ela se comportava demais de maneira que qualquer decote era visto como ofensa. Ela era assunto. A raiva do medo se transformou num invólucro de angústia que não arrebentava por mais que ela racionalizasse.
Tinha certeza que a razão era anã perto das emoções, um muro que escolhe se a inteligência vai atravessar ou não para o outro lado.

Um dia ela resolveu tentar. Queria viver, caramba! Passar por essa vida em tons de bege já era inaceitável. Era difícil, a voz que cantava gagejava mas ela cantava assim mesmo. Falava besteira e os outros não riam, era horrível, mas passava.
Vestiu mil personagens até se cansar de encenar e não saber mais quem era. Descobriu que tudo que ela criava tinha que ser de alguma forma seu, e isso lhe deu algum alento.
Ela pedia desculpa quando acertava e os elogios eram muito desconfortáveis.

Por quê meu Deus!

Porque viver num mundo pedindo licença! Por que cobrar juros tão altos por respirar, isso não era privilégio seu.
Queria que o ar fosse mais doce e leve. Porque inventar tanto peso pra carregar? Os pesos de verdade haveriam de vir e vieram. Queria criar músculos.

terça-feira, agosto 22, 2006

O meu amor mais sincero

Só o barulho do ar condicionado e eu pensando nela. Um novo cotidiano de monastério workaholic me anestesia, mas não completamente (graças a Deus). Ela é linda, nunca vou saber se me ama, mas sei que fica feliz ao ouvir a minha voz.
A saudade aperta como uma coisa boba. O quarto não é meu. Tento colar fotos na parede para me sentir mais em casa.
Não estou sozinha, isso nunca. Talvez eu tenha medo de ficar sozinha.
As coisas que amo gritam muito mais agora. Como elas me fazem falta. Acho que saudade é amor doído.
É o preço por poder dar a meus olhos tantas coisas novas e boas. Boas novas.
Tudo está mais estático que o normal. Como um plano que pede para ser cortado, mas perdura na tela de cinema.
Hoje faz treze dias.

quarta-feira, agosto 16, 2006

O jogo

Ele poderia ser seu pai, mas ainda bem que não o era. No seu dedo reluzia o anel dourado da discórdia. Era sua sina, ela pensava. Talvez isso acontecesse porque os machos alfa eram muito cobiçados. Ele olhava.
Ele ficou surpreso com a sua idade e ela sabia que isso era deleite para os homens de quarenta, a idade da motocicleta.
O filme reprisava. Começavam as piadinhas de início de intimidade e os contatos corporais forçados. Eles tateavam.
Ela imaginava como seria. Um corpo ainda não descoberto era sempre interessante.
O raciocínio assinalava perigo constante de se deixar levar pela correnteza errada.
Ela brincava. Gostava de brincar e sabia que podia cortar um dedo, ou cair ao escalar um brinquedo muito alto.
Parecia que havia se viciado na energia da conquista, as duas freqüências pairando no ar tentando se comunicar.
Ela aproveitava porque sabia que tudo era bom antes de chegar ao coração.
Tinha um coração aventureiro e por mais que já houvesse entrado em trilhas erradas a curiosidade de saber onde ia dar era mais forte.
O desejo superava a culpa. Sempre.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Além de tudo


Um tudo saía de meus olhos e pintava a paisagem, com pincéis de penugem macia e carinhosa. O dia estava lindo e a lua já havia chegado pra observar que um cenário tão comum virava sonho. Corri. Minhas pernas bambearam, mas eu só pensava no horizonte que me carregava como cegonha. Mergulhei.
Depois de bater muito rápido e muito forte o coração pacificou. Estava parado no tempo. O mundo parou pra eu observar cada detalhe. O mundo parou e meu mundo agora era o Mundo. Eu respirava e a vida entrava pelos poros.
Abri os braços e senti minha pele tocar cada gota d´água. Eu via tudo pequeno e o mundo me via grande. Eu amava e o amor encontrara tamanho.
Nenhum pensamento me ocorria. Meditava explodindo em adrenalina.
Perto do chão acabou. Soltei o cinto que me prendia à nave mágica racional.
Agora eu era. Eu era, e tinha certeza. Esqueçi Descartes e suas teorias. Eu apenas existia, além de tudo. Tudo era bom.

segunda-feira, julho 24, 2006

O espelho

Ninguém falava seu nome certo e ele urrava de dor e prazer quando isso acontecia, num sentimento de superioridade velada, já que ele não era um Silva. Mas ninguém sabia, pois todos os gritos eram internos de forma que na superfície havia uma camada de gelo espessa, num solo que nunca sofria tremores.
Era uma constante simpatia de dar raiva de não sofrer. Nos olhos apenas um pêndulo entre dois extremos. Era um macho aristocrata.
Dava desconfiança de ver. Talvez tudo fosse fachada, uma bela casa em estilo germânico com paninhos embaixo dos vasos geometricamente arrumados, numa equação cujo resultado era um movimento uniforme.
Tudo isso é porque perfeição causa estranheza já que no mundo não há forma que não seja maculada. Depois de paridas, todas as coisas passam por uma espécie de batismo que as arranha, mancha ou tira pedaço.
Ele disse que era pra eu me sentir à vontade e realmente a casa era aconchegante. Os objetos variados haviam sido estacionados de forma harmônica, numa habilidade típica de quem planeja tudo.
Precisei me aliviar fui ao banheiro, mas errei e cheguei no quarto. Ele tinha um espelho no quarto. Ele tinha um espelho e não era qualquer espelho. Era enorme e estava estrategicamente posicionado defronte o leito de sacanagens.
Fiquei feliz porque ele tinha um espelho. Ele agora era meu amigo, de verdade. Ele também pensava naquilo e poderia até ser confidente. Ele gostava de amar e se ver no espelho. Amava e olhava o espelho, isso eu tinha certeza!
Não tive mais receios e sorri.

sexta-feira, julho 21, 2006

Perdida

Ela perdeu um sonho que era sonho porque a realidade não permitiu que a ternura virasse acaso. Caso se perdesse no mundo, era só piscar e a bóia da salvação viria como uma luva. Mas a luva não serviu e prendeu-lhe a circulação. Perdeu. Perdeu, pensou a garota que não sabia direito se a vida era para ser tolerada em nota constante ou degustada sem distinção de sabores.
Amargo era seu peito que implodia num grito suave que só os mais atentos conseguiriam ouvir. Viu um sorriso, lembrou-se de como era quando feliz buscava nada. Agora que procurava um sentido coeso para a vida caótica ela não estava em pedaços, mas não sorria mais, só quando contavam piada.
A piada era que tudo começou num riso e acabou em choro, leve como pluma que voa aos ventos incertos e terminou certo como uma bigorna.
Não sabia se perdera ou ganhara, perdeu o parâmetro e se convenceu que já não tinha certeza.
No coração uma corda apertava num nó de marinheiro que quando se gostava já estava no próximo porto. Não sabia se virava massa de modelar no molde ou geléia em mãos de criança.
A impressão que tinha era que o sol continuava nascendo, mas cada vez mais apagado e os dias eram cada vez mais qualquer coisa. O rolo compressor da máquina produtiva tratou de deixá-la em transe por alguns momentos. Passava o dia a pensar em frutos mas a música de Bach lembrava que havia ainda água em seu peito.
Sofria para não deixar passar em branco.